quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Depreciação do ativo humano científico brasileiro

O governo federal assinou hoje uma MP reajustando o salário mínimo que passará a valer R$ 510,00 a partir de 1º de Janeiro de 2010. Apesar do fato constituir-se uma notícia excelente para a estabilidade econômica, produtiva e social do Brasil, o mesmo, por outro lado, expõe a fragilidade do investimento em pesquisa e tecnologia e o fracasso na formação de recursos humanos no setor científico no país.

Como uma imagem vale mais do que mil palavras, desenvolvo o texto com base em um gráfico aproximado (Figura 1) compilado por mim o qual mostra a evolução da relação dos valores de bolsa de pós-graduação em instituições superiores brasileiras pagas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) versus o valor do salário mínimo no país.

Figura 1. Relação do valor das bolsas de pós-graduação do CNPq e salário mínimo no Brasil.

A inspeção visual do gráfico demonstra que tal relação vem em tendência de queda desde 1994, quando o valor da bolsa de mestrado era de R$ 724,50; a de doutorado de R$ 940,00 e o salário mínimo equivalia a R$ 70,00. Ou seja,  o valor pago ao estudante brasileiro de doutorado para dedicar-se exclusivamente aos estudos e à pesquisa equivalia a aproximadamente 13 vezes o valor do salário mínimo. Em 2010, com aumento do salário mínimo, um estudante de doutorado brasileiro passará a ganhar 3 salários e meio, enquanto que o de mestrado ganhará menos de 2 salários e meio, o que é uma absoluta vergonha.

Os ínfimos aumentos concedidos na gestão do presidente Lula, apesar de toda a boa vontade do nobre chefe de Estado brasileiro, mostraram-se insuficientes e não condizem com o discurso do governo de se tornar um "parceiro" do setor científico-tecnológico brasileiro. Se a política de investimentos na formação de recursos humanos não mudar nos próximos cinco anos, temo que o tão sonhado despertar do Brasil  no cenário internacional não passe de apenas mais um sonho frustrado. Para construirmos o futuro, devemos edificar os pilares de sustentação e, nesse cenário, ciência e tecnologia provarão serem fundamentais para a soberania nacional.

Enquanto isso, contentar-me-ei com o valor pago atualmente para dedicar-me exclusivamente ao mestrado e assistirei, paralisado, colegas ganharem o triplo (em média) no mercado de trabalho apenas com a graduação. Qual o nosso futuro? Incerto, certamente.

2 comentários:

maurelio1234 disse...

não entendo... por que a bolsa de mestrado e doutorado deveria acompanhar o mínimo?

aqui na frança a bolsa de doutorado média não é nem 1.5 vezes o mínimo... será que aqui a pesquisa é levada menos a sério que no brasil?

Carlos Azevedo disse...

Olá @maurelio1234,

não, a pesquisa na França não é levada "menos a sério que no brasil". O objetivo do texto não é afirmar que as bolsas de pesquisa deveriam acompanhar o mínimo, como você colocou, mas sim o de mostrar que há uma clara tendência de queda nos investimentos em recursos humanos de pesquisa no Brasil.

O ideal seria mostrar a evolução temporal dos valores da bolsa e averiguar se os aumentos concebidos esporadicamente ao longo da última década acompanharam ou não a inflação. Só que eu não sou economista e nem tenho esses dados. Por isso, escolhi a comparação relativa ao salário mínimo como parte inicial do argumento que se encontra no texto. Ok?

O fato é que o valor das bolsas não é mais suficiente para motivar a dedicação exclusiva de um aluno de mestrado ou doutorado à pesquisa, dado que em certas áreas (como TI e engenharias), a média salarial inicial para graduandos é muito maior. Assim, a carreira acadêmica é desencorajada pelo aspecto financeiro, embora imagine que a maioria dos estudantes de pós-graduação brasileiros escolheram esse caminho (e eu me incluo nesse subgrupo) devido à paixão e vocação para o ensino e pesquisa.

Espero que você tenha entendido a questão.

Um abraço e obrigado pelo seu comentário,

Carlos Renato.